
Quantas de vós, valentes senhoritas, têm a estúpida tarefa de dobrar as meias do homem*? Eu tenho e sou mesmo valente. Aliás, valente e com uma paciência que vai daqui até Cacilhas. As meias deles são todas iguais. Ou pretas, ou azuis muito escuras, ou pretas acinzentadas... epa, aquilo à noite com a luz baixinha do candeeiro da sala sabe tudo ao mesmo. Mas não... eles fazem questão de nos lembrar que são todas diferentes. Há umas que têm o cano mais baixo e outras mais alto e largo. Depois há as fininhas para usar com os sapatos tal ou as grossas para os ténis xis. Depois há as que têm uma macacada qualquer bordada que, benditas sejam, ajudam logo à triagem. Aliás, a tarefa é feita por triagens que consiste em separar as que se distinguem das outras pela cor, tamanho, textura e assim sucessivamente, até ficar com as mais parecidas. Só depois é que se avança para o emparelhamento das gajas. No fim desta odisseia, apenas reservada a mulheres muito valentes e com doses de paciência sagradas, há sempre uma outra puta desgraçada que fica sem par... azar, fica órfã até à próxima remessa.
*o homem trata quase sempre da comida, por isso a roupa é quase sempre do meu pelouro... é justo.